quinta-feira, 16 de junho de 2016

Do voar

Fez asas de papel e pulou do precipício. Oras, disseram-lhe que o bom da vida era voar. Mal soube do chão ansioso por sua chegada.
Desavergonhada. Militante dos próprios amores. Um inquietante costume de romper. Poderia aparecer de cabelos pintados, não notariam. Pensam mesmo que a rebeldia é a sua definição.
Rebeldia, devo dizer, amarrada à loucura de buscar-se. Mas não advogam sua causa, chamam-na de desavergonhada.
"Talvez se em casa, aprisionada, da maldade livre estaria", diziam.
Há de ser dito: pro mar não servem algemas. E há quem mesmo algemado lança-se a navegar.
Talvez por isso, à beira do precipício, disseram-na para pular. Às vezes, alguns, desejando o próprio chão.
Convencida pelas próprias razões, afinal, pulou, pois o bom da vida era voar.
Sem saber que seu voar era cair, abriu seus braços e suas asas de papel, desejando o mundo.
Mundo, mundo, é mesmo este o precipício?
Se dissestes que era tão profundo...
Se dissestes que tão pesado eras... Haveria de ter batido mais as asas, pois de querer-lhe, jamais desistiria.
Mundo, mundo. Podem mesmo estas asas serem de papel, pois o bom da vida mesmo é voar. Pode mesmo este cair ser o meu voo.
Hei de cair, hei de voar, se for este, ao fim, o exato preço de se ser.

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